sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Logos: Sabedoria e Força X Imutabilidade e Transformação


É inegável que nos 131 Fragmentos tomados como válidos por Diels e Kranz predominam o logos (relação com o conhecimento), o fogo (motor dos processos) e o tempo (relação com o ser). O logos concentra em si as discussões epistemológicas, assim como aquelas ligadas à alma e ao conflito; o fogo encerra o conceito do princípio unificador, para alguns, o único elemento estável de todo o processo; já o tempo congrega o debate sobre as temporalidades permanentes e as transitórias, assim como, por derivação, a questão ontológica do “ser e não ser” ao mesmo tempo.
Iniciemos pelo logos e sua dimensão epistemológica. Heráclito fala em “ouvir o logos”, isto é, ouvir a natureza fundamental do homem, fato que Heidegger, em Carta sobre o humanismo, leu como “escuta do ser” através da poesia. O logos está sempre presente e os homens que não se predispõem a ouvi-lo não o conhecerão como tampouco terão capacidade de falar e de pensar. Ouvir o logos é, naturalmente, uma forma metafórica. Logos não é a palavra e não pode ser reduzido (ou empobrecido) a uma questão meramente linguística. O logos está muito além do homem. Ele não opera com conceitos e se usa de uma linguagem “polivalente e antepredicativa”, que permite ao homem tornar-se porta-voz esclarecido dele, mas jamais seu fundador: o logos o ultrapassa. Mais ainda, o logos está antes comprometido com a questão epistemológica: é o saber genérico, o tomar consciência, o estar presente no mundo.
O homem sem ouvir pode estar presente, mas nada apreende, ele torna-se “presente ausente”. Deixar de se envolver diretamente no que está vivendo é como nada vivenciar em primeira mão.
Na epistemologia do logos, o saber, o tomar consciência, mostra-se instantaneamente, sem intermediários. Basta “estar desperto”, “estar na escuta”, fato que só é possível durante a ocorrência da coisa, jamais depois. Apreendemos as coisas como “de um salto”, mas não se pode deter-se lá. Os que dormem, dizem os fragmentos 75, 89 e 1, estão distantes do logos. Como no conceito de sentido dos estóicos, o sentido emana imediatamente do ato, ele é instantâneo, só é capturável naquele exato momento, o momento do “ser cortado” quando bisturi e carne constituem algo incorpóreo. Todas as tentativas posteriores de recuperação serão infiéis, artificiais, forçadas e forjadas, exercício a posteriori de se refazer aquilo que já não está ocorrendo. Por isso, a interpretação será sempre trabalho sobre um resíduo instalado, enquanto que a vivência é apreensão, é sentir o logos. Voltaremos a isso na discussão do acontecimento, mais à frente.
Mas o logos também é outras coisas. Ele pode ser a alma, o “daímon” (o intermediário entre o divino e o humano); pode ser os próprios deuses, ele é o conflito, o combate, a morte. Vamos por partes. Logos enquanto alma não se confunde com a alma romântica, a alma racional, a alma cristã, todos esses subprodutos da alma platônica. Ele é alma enquanto vida “sopro”, ou mesmo, psiquismo. Aqui, logos é élan vital.
Como Daímon, ele é o elo entre homem e Deus, aquele que faz a ligação, da mesma forma como em sua apropriação pelo cristianismo, como anjo da guarda, que nos sussurra ao pé do ouvido o que devemos e o que não devemos fazer. É, portanto, também, a “voz interior”, espécie de consciência, aquela que deve ser ouvida. Mas essa consciência nada tem a ver com o Cogito cartesiano. Nesse aspecto, Heráclito é bem claro: “ouvindo não a mim, mas ao logos é sábio concordar que tudo-é-Um” (fr. 50)
Tudo é um, o cosmos é ou está em cada um de nós. Isso quer dizer que sentimos o mundo seja pelas coisas sensíveis que se mostram a nós, seja através da captação daquilo que não se mostra. O invisível faz parte dessa epistemologia da mesma forma que o visível. 
Mas, como pode ser logos também conflito e morte? É que logos, além de ser aquilo que se conhece ou que nos permite conhecer (a natureza do ser), apreensível através da escuta atenta, além de ser essa anima que nos envolve e que nos liga ao cosmos e à divindade, além de ser o daímon, a voz interior. O Logos não está, em princípio, para Heráclito, associado a discurso, a palavra. Não tem nada a ver com qualquer interpretação linguística ou textual; o termo remete, antes, ao legein, que se refere “àquilo que reúne”.
Sendo aquilo, segundo o qual, tudo acontece, ele é a instância onde os contrários, juntando-se, equilibram-se; é o combate e a harmonia. Em outras palavras: logos é força neutra e sabedoria única.
O conflito, por outro lado, é à base de tudo. Para Heráclito quem provoca a dinâmica incessante na physis não é apenas o movimento, mas também o conflito.
 O fogo, para Heráclito, é o correspondente imediato do logos, assim como o elemento motor do mundo. O fogo são as “impressões digitais” que o logos empresta a todas as coisas. Ele gira em torno das coisas ou é seu “invólucro”. Não é apenas um invólucro porque ele, enquanto elemento motor, de fato, gira em torno das coisas e as comanda. Diz Heráclito no fragmento 31: “Conversões do fogo: em primeiro lugar, no mar; mas, do mar em metade da terra, a outra metade é brasa ardente... A terra dilui-se em mar e este retoma seu tamanho na mesma relação que ele estava antes de tornar-se terra”. O fogo, assim, conforme Diels-Kranz, não é obra de nenhum deus, nem dos homens; é simplesmente o “fogo eternamente vivo”. E divinos, para ele, não são exatamente os deuses, mas a “lei fundamental do cosmos”, uma outra forma para falar do movimento dos opostos na busca de uma harmonia. E é o fogo quem permite a realização do logos. Ele é a marca da eterna presença deste, ambos reunidos sob o conceito de physis (como totalidade do real: tanto na sua ordenação quanto nas leis que o regem), que abarca tudo, tanta materialidade quanto às relações abstratas que a sustentam. Os elementos que constituem o real (efêmeros, mutáveis) e o fogo (a duração, o permanente) estão imbricados uns nos outros, sob um único e mesmo logos.

 everton moura.

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