domingo, 8 de maio de 2011

MORTE E VIDA SEVERINA...

—  Essa cova em que estás,  
com palmos medida,  
é a cota menor  
que tiraste em vida.  
——  é de bom tamanho,  
nem largo nem fundo,  
é a parte que te cabe  
neste latifúndio.  
——  Não é cova grande.  
é cova medida,  
é a terra que querias  
ver dividida.  
——  é uma cova grande  
para teu pouco defunto,  
mas estarás mais ancho  
que estavas no mundo.  
——  é uma cova grande  
para teu defunto parco,  
porém mais que no mundo  
te sentirás largo.  
——  é uma cova grande  
para tua carne pouca,  
mas a terra dada  
não se abre a boca.  
  
  
——  Viverás, e para sempre  
na terra que aqui aforas:  
e terás enfim tua roça.  
——  Aí ficarás para sempre,  
livre do sol e da chuva,  
criando tuas saúvas.  
——  Agora trabalharás  
só para ti, não a meias,  
como antes em terra alheia.  
——  Trabalharás uma terra  
da qual, além de senhor,  
serás homem de eito e trator.  
——  Trabalhando nessa terra,  
tu sozinho tudo empreitas:  
serás semente, adubo, colheita.  
——  Trabalharás numa terra  
que também te abriga e te veste:  
embora com o brim do Nordeste.  
——  Será de terra  
tua derradeira camisa:  
te veste, como nunca em vida.  
——  Será de terra  
e tua melhor camisa:  
te veste e ninguém cobiça.  
——  Terás de terra  
completo agora o teu fato:  
e pela primeira vez, sapato.  
——  Como és homem,  
a terra te dará chapéu:  
fosses mulher, xale ou véu.  
——  Tua roupa melhor  
será de terra e não de fazenda:  
não se rasga nem se remenda.  
——  Tua roupa melhor  
e te ficará bem cingida:  
como roupa feita à medida.  
  
  
——  Esse chão te é bem conhecido  
(bebeu teu suor vendido).  
——  Esse chão te é bem conhecido  
(bebeu o moço antigo)  
——  Esse chão te é bem conhecido  
(bebeu tua força de marido).  
——  Desse chão és bem conhecido  
(através de parentes e amigos).  
——  Desse chão és bem conhecido  
(vive com tua mulher, teus filhos)  
——  Desse chão és bem conhecido  
(te espera de recém-nascido).  
  
  
——  Não tens mais força contigo:  
deixa-te semear ao comprido.  
——  Já não levas semente viva:  
teu corpo é a própria maniva.  
——  Não levas rebolo de cana:  
és o rebolo, e não de caiana.  
——  Não levas semente na mão:  
és agora o próprio grão.  
——  Já não tens força na perna:  
deixa-te semear na coveta.  
——  Já não tens força na mão:  
deixa-te semear no leirão.  
  
  
——  Dentro da rede não vinha nada,  
só tua espiga debulhada.  
——  Dentro da rede vinha tudo,  
só tua espiga no sabugo.  
——  Dentro da rede coisa vasqueira,  
só a maçaroca banguela.  
——  Dentro da rede coisa pouca,  
tua vida que deu sem soca.  
  
  
——  Na mão direita um rosário,  
milho negro e ressecado.  
——  Na mão direita somente  
o rosário, seca semente.  
——  Na mão direita, de cinza,  
o rosário, semente maninha,  
——  Na mão direita o rosário,  
semente inerte e sem salto.  
  
  
——  Despido vieste no caixão,  
despido também se enterra o grão.  
——  De tanto te despiu a privação  
que escapou de teu peito à viração.  
——  Tanta coisa despiste em vida  
que fugiu de teu peito a brisa.  
——  E agora, se abre o chão e te abriga,  
lençol que não tiveste em vida.  
——  Se abre o chão e te fecha,  
dando-te agora cama e coberta.  
——  Se abre o chão e te envolve,  
como mulher com que se dorme.