quinta-feira, 5 de maio de 2011

FILOSOFIA DA MÚSICA...





A filosofia da música é o estudo acerca do que é a música e de como esta tem significado. Associadas a estes assuntos abrangentes e abstractos estão questões que têm a ver com a composição, a execução e a audição:
  • O que é a beleza na música?
  • Quais os efeitos da música em indivíduos, grupos e sociedades inteiras?
  • Que relações há entre a música, a natureza do som e a natureza do cosmos?
  • Será que a música é uma linguagem e, se o for, de que tipo são as suas mensagens e quem é a sua fonte?
  • Quais as bases da avaliação de composições e execuções (isto é, da crítica)?
  • Será que algumas tradições musicais são superiores a outras?
  • O que é uma obra musical?
Estes são os tópicos que ocuparam os filósofos (na tradição ocidental) a partir dos gregos, e embora a música e a filosofia tenham ambas sofrido muitas mudanças durante esse período, as teorias essenciais acerca da natureza da música continuaram a resistir admiravelmente durante muito tempo, o que significa também que se mostraram notavelmente difíceis de justificar ou desacreditar.
Algumas dessas teorias têm a ver com a expressão. Se afirmamos (e de nenhum modo todos os filósofos o afirmam) que a música exprime sentimentos, é ainda bastante discutível o que isto signifique. Será que os compositores traduzem deliberadamente para notas no papel sentimentos que os executantes então traduzem novamente para sentimentos? Ou será que tudo isto acontece inadvertidamente, enquanto as pessoas envolvidas se ocupam de outros assuntos, de forma, execução e compreensão? Em qualquer dos casos, como ocorrem estas traduções? Haverá algum código? Se há, será que depende da natureza do ouvido e do som ou da convenção? Será que a música imita o discurso e os gestos de uma pessoa agitada, ou será que tem uma linguagem expressiva própria? Devemos ver a sua expressão como algo que lhe pertence em vez de ao seu compositor? Será que evoca sentimentos em nós, encoraja a compaixão perante os sentimentos dos outros, ou nos dá uma compreensão destes sentimentos de uma maneira mais geral?
As alternativas ou complementos à teoria expressiva da música assumem essencialmente três formas, afirmando diferentemente que os significados da música têm a ver com a natureza do som e o tempo, que é um meio de comunicação com forças superiores (talvez divinas, talvez interiores à mente), ou que é um instrumento de pensamento acerca da constituição do universo. Teorias do último género dependem amiúde de ligações entre a música e a matemática, como na noção de “música das esferas”, mantendo que a música humana é uma imagem das grandiosas proporções das órbitas planetárias, ou na aplicação de sistemas numéricos à música. Tais teorias raramente são acerca dos meios pelos quais os números, hermeticamente selados na harmonia ou ritmo, transmitem as suas associações e significados ao ouvinte.
Por outro lado, as teorias formalistas da música que a encaram como auto-suficiente receberam apoio e encorajamento nos séculos XVII, XVIII e XIX a partir de uma compreensão alargada do som e da forma musical. Na verdade, a elaboração da forma musical nas obras de Brahms, Wagner e Mahler demonstra a força destas teorias, mesmo numa época em tão profunda sintonia com a expressividade da música — o que só mostra que é possível aos músicos manter opiniões divergentes, simultaneamente, acerca da sua arte. Para Wagner, pelo menos, não era menos evidentemente poderosa a teoria da música segundo a qual esta arrasta o numinoso para a área do imediatamente perceptível.
A capacidade de a música falar em muitas vozes diferentes — as vozes manifestas da polifonia ou as vozes mais submersas de diferentes participantes (compositor, executante, carácter ou personagem, a que se pode adicionar as vozes das tradições instrumentais, formais e nacionais) — é essencial ao que a tornou um assunto tão fascinante e desconcertante de discussão filosófica.
EVERTON

PLATÃO X ARISTÓTELES



Platão nasceu em Atenas no ano 428 a.C. Seus pais pertenciam a uma antiga e nobre descendência. Teve um temperamento de artista e de filósofo ao mesmo tempo, manifestação característica e elevada de gênio grego. Aos vinte anos, Platão travou relações com Sócrates, cujo ensino e amizade gozou durante oito anos. Quando discípulo de Sócrates, Platão estudou também os maiores pré-socráticos. Após a morte do mestre, começou a viajar, dando um vasto giro para se instruir através do Egito, da Itália meridional e da Sicília. Na Sicília tentou inutilmente realizar a sua utopia política junto à corte de Siracusa. Pelo ano de 368 fundava em Atenas a sua famosa escola, que tomou o nome de Academia, dedicando-se inteiramente à especulação metafísica, ao ensino filosófico e à redação de suas obras até à morte em 347 a.C. A atividade literária de Platão abrange mais de cinqüenta anos; escreveu treze cartas e trinta e seis diálogos, que representam a obra-prima da sua atividade artística e filosófica.
Platão, como também Sócrates, pensa que a filosofia tem um fim prático, moral; é a grande ciência que resolve o problema da vida. Este fim prático, porém, realiza-se só intelectualmente, através da especulação, do conhecimento, da ciência. Mas, diversamente de Sócrates, que limitava a investigação filosófica, conceitual, ao campo antropológico e moral, Platão estende tal investigação ao campo metafísico e cosmológico, quer dizer, a toda a realidade. Como Sócrates, também Platão distingue um conhecimento sensível, a opinião, e um conhecimento intelectual, a ciência; particular e mutável o primeiro, universal e imutável o segundo. Entretanto Platão, diversamente de Sócrates, que faz derivar o segundo do primeiro, julga que o conhecimento intelectual não pode derivar do conhecimento sensível, por terem precisamente estes dois conhecimentos características opostas. Diversamente do mestre, pois, que ignora a metafísica, Platão dá tanto a um quanto a outro conhecimento, um objeto correspondente, um fundamento ontológico: ao conhecimento sensível o mundo material, multíplice e mutável; ao conhecimento intelectual o mundo ideal, universal e imutável.
AS IDÉIAS = O sistema metafísico de Platão centraliza-se e culmina no mundo divino das idéias, a que é contraposta a matéria, obscura e incriada. Entre as idéias e a matéria estão  o Demiurgo - arquiteto do universo - e as almas, donde desce das idéias para a matéria o tanto de racionalidade que nela aparece. A divindade platônica é representada pelo mundo das idéias, e especialmente pela idéia do Bem, que ocupa o lugar de maior destaque. Pelo fato de que as idéias são conceitos personificados, transferidos da ordem lógica à ordem ontológica, terão consequentemente as características dos próprios conceitos: transcendentes à experiência, universais, imutáveis, e ordenados logicamente, sistematicamente entre si(dialética).
AS ALMAS = Como o Demiurgo, e em dependência dele, a alma tem uma função mediadora entre as idéias e a matéria, a que comunica ordem e vida. Platão distingue três espécies de almas:concupiscível(vegetativa), irascível(sensitiva), racional(inteligente), que são próprias, respectivamente, da planta, do animal e do homem; e no homem se acham reunidas hierarquicamente, enquanto ele é um ser vivo, sensitivo e dotado de intelecto. A alma racional está no corpo humano como em prisão, em exílio, a que é condenada por uma culpa cometida quando estava no mundo das idéias, sua pátria verdadeira, donde, em conseqüência dessa culpa, decaiu.
O MUNDO = O mundo material, o cosmos platônico, resulta da síntese de dois princípios opostos: as idéias e a matéria. O Demiurgo plasma o caos da matéria sobre o modelo das idéias eternas, introduzindo-lhe a alma, princípio de ordem e de vida. Platão é um pampsiquista, isto é, anima todo o universo: haveria, antes de tudo, uma alma do mundo, e, depois, partes dela, dependentes e inferiores, que seriam as almas dos astros, dos homens, etc.
Consoante a psicologia platônica, a natureza do homem é racional, e, por conseqüência, na razão o homem realiza a sua humanidade: a ação racional realiza o sumo bem que é, ao mesmo tempo, felicidade e virtude. Entretanto, esta natureza racional do homem encontra no corpo não um instrumento, e sim um obstáculo, que Platão explica mediante um dualismo filosófico-religioso de alma e corpo: o intelecto encontra um obstáculo no sentido, a vontade no impulso. A moral platônica, portanto, é uma moral de renúncia ao mundo - ascética - , e o homem realiza o seu destino além deste mundo, na contemplação do mundo das idéias. Nesta ascese moral, Platão distingue quatro virtudes fundamentais: a sabedoria, a fortaleza, a temperança, a justiça. Quanto ao destino das almas após a morte, julga Platão que as dos sábios, dos filósofos, que se libertaram inteiramente da sensibilidade, voltam para o mundo ideal; as dos homens mergulhados inteiramente na matéria, vão para um lugar de danação; as almas intermediárias se reincarnam em corpos mais ou menos nobres, conforme o bem ou o mal que fizeram.
Platão deriva da natureza humana a justificação da sociedade e do estado, visto que cada um precisa do auxílio moral e material dos outros; deve, portanto, estar unido com os outros. Desta variedade de necessidades humanas origina-se a divisão do trabalho e, consequentemente, a distinção do povo em classes, em castas, bem como a instituição da escravidão, para os trabalhos mais materiais, servis. Segundo Platão, o estado ideal deveria ser dividido em três classes sociais: a dos filósofos, conhecedores da realidade, aos quais cabe o governo da república; a dos guerreiros, a quem cabe a defesa interna e externa do estado, de conformidade com a ordem estabelecida pelos filósofos; a dos produtores - agricultores e artesãos - submetidos às duas classes precedentes, cabendo-lhes a conservação econômica do estado. Platão tinha compreendido que os interesses privados, domésticos, redundam efetivamente em contraste com os interesses sociais, estatais. E não hesita em sacrificar inteiramente a família e a riqueza dos particulares ao Estado; daí o assim chamado comunismo platônico, que não é materialista, econômico, e sim espiritual, ascético. Se a natureza do estado é, essencialmente, a de um organismo ético, o seu fim principal é pedagógico: o estado, antes de tudo, deve prover ao bem espiritual dos cidadãos, educando-os virtuosamente; e apenas secundariamente, instrumentalmente, se deve ocupar com o bem-estar dos cidadãos.A divindade platônica é constituída pelo mundo das idéias, ocupando o centro a idéia do Bem. Quanto à religião positiva grega, Platão hostiliza o antropomorfismo, admitindo entretanto um politeísmo astral, tendo ao centro o Demiurgo. As doutrinas estéticas de Platão são algo oscilantes entre uma valorização e uma desvalorização da arte. No conjunto do seu pensamento prevalece a desvalorização e por dois motivos, teorético um, prático outro. O motivo teorético é que a arte seria cópia de uma cópia: cópia do mundo empírico, que já é cópia do mundo ideal. Em suma, a arte copiaria os fenômenos, não as essências como as ciências fazem. O motivo prático é que a arte, dada esta sua natureza teorética inferior, impura fonte gnosiológica, torna-se igualmente danosa no campo moral: com efeito, operando cegamente sobre o sentimento, a arte nos atrai para o verdadeiro assim como para o falso, para o bem como para o mal.
A escola filosófica fundada por Platão, a Academia, sobreviveu-lhe por quase um milênio, até o século VI dC. A  Academia platônica divide-se comumente em antiga, média e nova. A antiga academia preocupa-se com uma sistematização mais completa do pensamento platônico e com uma maior valorização da experiência. A média academia toma uma tendência cética, sobretudo graças a Carnéadas. A nova academia orienta-se especialmente para o ecletismo. Chega-se, entrementes, ao início da era vulgar; a academia platônica, porém, sobreviverá ainda e tomará uma última forma no neoplatonismo.

ARISTÓTELES

Este grande filósofo grego nasceu em Estagira no ano 384 a.C. Aos 18 anos entrou na Academia Platônica, onde ficou por vinte anos, até à morte do mestre. Em 343 foi convidado por Filipe, rei da Macedônia, para educar o filho Alexandre, chamado mais tarde, Magno. Voltando para Atenas em 335, aí fundou sua escola famosa, chamada Liceu e também escola peripatética. Em 323 teve de abandonar Atenas por motivos políticos, retirando-se para Eubéia, onde morreu em 332 a.C. com 62 anos de idade. Aristóteles foi especialmente um homem de cultura e de pensamento, que se isola da vida prática, para a pesquisa científica. A sua atividade literária foi vasta e intensa, como a sua cultura e o seu gênio; chegam perto de um milheiro as obras escritas por ele, das quais ficou a parte, não quantitativamente, mas qualitativamente mais importante, a saber: os tratados científicos elaborados para o ensino. A primeira edição completa das obras dele é a de Andrônico de Rodes - pelos fins da era antiga - que classifica os escritos aristotélicos da maneira seguinte: lógica, física, metafísica, moral, política, retórica e poética. As obras doutrinais dele manifestam um grande rigor científico, exposição e expressão breve e aguda, clara e ordenada, maravilhosa perfeição da terminologia filosófica.
Segundo ele, a filosofia é essencialmente teorética, deve decifrar o enigma do universo: o seu problema fundamental é o problema do ser, não o da vida. A filosofia divide-se em teorética, prática e poética, e abrange todo o saber humano. A teorética divide-se, por sua vez, em física, matemática e filosofia primeira(metafísica e teologia); a prática divide-se em ética e política; a poética em estética e técnica. Pelo que concerne ao problema gnosiológico, a ciência, a filosofia têm como objeto o universal, o necessário, isto é, a forma, a essência das coisas existentes na realidade. Objeto essencial da lógica aristotélica é o processo de derivação, demonstração, dedução ideais do particular pelo universal, que corresponde a um processo de derivação real no mundo das coisas: a sua expressão clássica é o SILOGISMO. Segundo ele, porém, diversamente de Platão, os elementos  primeiros do conhecimento, da ciência - conceitos e juízos - têm que ser, num caso e noutro, tirados da experiência. Assim sendo, compreende-se como Aristóteles, ao lado da doutrina da dedução, foi levado a elaborar, na lógica, uma doutrina da indução. Não é ela por certo efetivamente completa, mas pode ser integrada logicamente segundo o espírito profundo da filosofia aristotélica.
A metafísica aristotélica é a ciência do ser como ser, isto é, do ser em geral(ontologia=metafísica geral).  Ciência  de Deus , do homem e do mundo(Metafísica especial=cosmologia, psicologia e teologia). As questões principais da metafísica geral aristotélica podem-se reduzir a quatro: potência e ato: potência significa não-ser atual e capacidade de ser: ato significa ser efetivo, realização de uma possibilidade. Todo ser, salvo o ser perfeitíssimo, é umasíntese(sínolo) de potência e ato. A passagem da potência ao ato é o vir-a-ser. Matéria e forma: a matéria é a potência e a forma é o ato no mundo material. A matéria é, portanto, o princípio de indeterminação, que é determinado pela forma (essência, espécie). Todo ser material resulta da síntese de matéria e forma(substância. Particular e universal: a particularidade, a singularidade, a individualidade das várias substâncias depende da matéria, que multiplica precisamente em muitos indivíduos a universalidade da forma. Motor e coisa movida: o movimento, o vir-a-ser, a mudança, é a passagem da potência ao ato, da matéria à forma. A fim de que esta passagem se realize, para que haja movimento, vir-a-ser, mudança, é preciso um motor, uma causa da própria passagem, até que, de causa em causa, se chegue a Deus, ato puro, motor imóvel do universo.
Uma questão geral da física aristotélica como filosofia da natureza, é a análise dos vários tipos de movimento, mudança que já sabemos consistir na passagem da potência ao ato, realização de uma possibilidade. Outra e também importantíssima questão desta física concerne ao espaço e ao tempo, concebidos como reais por Aristóteles: não, porém, como substâncias, mas como relações entre substâncias. Uma questão fundamental da filosofia natural aristotélica é a referente à finalidade, à ordem da natureza. Aristóteles é um autêntico afirmador da doutrina da finalidade, com base na doutrina da causa final.
Objeto principal da pscicologia aristotélica é o mundo vivente, que tem como princípio a alma, e se distingue essencialmente do mundo inorgânico, mineral. Aristóteles distingue uma alma vegetativa, própria das plantas; uma alma sensitiva, própria dos animas; uma alma racional, própria do homem, e que reúne em si também as funções características das duas almas precedentes. O homem é uma unidade substancial de alma e corpo, em que a alma desempenha o papel de forma com respeito à matéria, esta constituindo o corpo. O que caracteriza a alma humana é a racionalidade, a inteligência, o pensamento, pelo que ela é espírito e deve ser imortal. As faculdades fundamentais do espírito humano são duas: a teorética, cognoscitiva, contemplativa; e a prática, operativa, ativa. Cada uma delas, pois, se desdobra em dois graus, sensitivo e intelectivo, se levar em conta que o homem é um espírito unido, substancialmente, ao corpo. Teremos, assim, um conhecimento sensível e um conhecimento intelectual, e dois tipos de atividades práticas: a tendência e a vontade.
Objeto próprio da teologia é o motor imóvel, o ato puro, o pensamento do pensamento, isto é, Deus. Aristóteles chega a Deus mediante uma sólida demonstração, que parte da experiência imediata, da indiscutível realidade do devir, da passagem da potência ao ato. Todo devir demanda necessariamente uma causa, e esta uma outra causa ainda; e, assim por diante, até se chegar a um ser que não vem-a-ser, a um motor em ato, a um puro ato, que, de outra forma, deveria ser movido por sua vez. Da análise do conceito de Deus, concebido como primeiro motor imóvel, Aristóteles deduz logicamente a natureza essencial de Deus. Antes de tudo, Deus concebido como ato puro, perfeição absoluta e, depois, concebido como pensamento do pensamento, conhecimento de si mesmo: nesta autocontemplação imutável e ativa está a beatitude divina. Se Deus é mera atividade teorética, tendo como objeto unicamente a própria perfeição, não conhece o mundo imperfeito, e menos ainda atua sobre ele como criador e providência. O Deus de Aristóteles atua sobre o mundo, por Ele movido, não como causa eficiente, operante, mas como causa final, atraente.


Conforme a metafísica aristotélica, todo ser tende necessariamente à realização da sua natureza, à concretização plena da sua forma: e nisto está o seu fim, o seu bem, a sua felicidade e, por conseqüência, a sua lei. Visto ser a razão a essência  característica do homem, realiza ele a sua natureza vivendo racionalmente, e sendo disto consciente. E, desta maneira, ele alcança a felicidade e a virtude. Logo, o fim do homem é a felicidade, para a qual é necessária a virtude, que, por sua vez necessita da razão. A característica da ética aristotélica é a harmonia entre paixão e razão, virtude e felicidade; e também a doutrina de que a virtude é um hábito racional. Enfim, a ética aristotélica reconhece a primazia das virtudes dianoéticas, contemplativas, sobre as virtudes éticas, ativas; a supremacia do conhecimento e do intelecto sobre a prática e a vontade. O  Estado é um organismo moral, condição e complemento da atividade moral individual. A política, todavia, é distinta da moral; pois, esta tem como objeto o indivíduo, aquela a coletividade: a ética é a doutrina moral individual, a política é a doutrina moral social. O estado é composto pela comunidade das famílias, como os diversos indivíduos compõem as famílias. Segundo ele, a família é constituída de quatro elementos: os filhos, a mulher, os bens e os escravos; fora naturalmente o chefe, a quem cabe a direção geral. A fim de que a propriedade seja produtora, são necessários instrumentos animados e inanimados: os animados seriam os escravos, a que Aristóteles não nega a natureza humana, mas não lhes reconhece os direitos humanos, por causa da atividade material deles. O estado provê inicialmente a satisfação daquelas necessidades materiais, negativas e positivas, defesa e organização, que não se podem de outro modo realizar; mas o seu fim é essencialmente espiritual, pedagógico. O Deus aristotélico é representado pelo Ato Puro, admitindo Aristóteles outros deuses subordinados a este: os deuses astrais, inteligências animadoras das estrelas. Não obstante este teísmo superior, Aristóteles deixa ao povo a religião positiva, antropomórfica, a ele adaptada, sem correção alguma. Aristóteles, como Platão, considera a arte como imitação. Entretanto, não imitação da imitação, como é o fenômeno, o sensível platônico; mas imitação direta da própria idéia, imitação do inteligível imanente no sensível, imitação da forma imanente na matéria. Na arte, este inteligível, universal, é encarnado concretizado em um sensível, em um particular e, destarte, tornado, intuitivo, graças ao artista. A escola peripatética - o Liceu - não teve a longa duração e a variedade de orientações da academia platônica, e dedicou-se especialmente à indagação empírica, naturalista, histórica. Inversamente, o aristotelismo, mais do que o platonismo, terá uma fecunda vida fora e além do pensamento grego, isto é, no pensamento cristão, escolástico, tomista.
EVERTON