segunda-feira, 2 de maio de 2011

EXISTENCIALISMO...


 Soren Kierkegaard veio ao mundo em 5 de maio de 1813, em Copenhaga. Seu pai, comerciante, desposara em segunada núpcias sua própria doméstica. Ao contrário do primeiro casamento, que fora infértil, o segundo foi fecundo de nada menos que sete filhos. Soren fo i o último dos sete filhos, tendo nascido quando o pai já tinha ciquenta e seis anos e a mãe quarenta e quatro. Ao crescer era um profundo conhecedor de obras clássicas. Entre as fontes que o influenciava estava: as belas-artes, a filosofia clássica e moderna, a teologia, etc.  Pode-se perceber na obra de Kierkegaard um pensamento reflexivo bastante abrangente, fruto desta sua diversidade de fontes.  Toda esta abrangência tem o objetivo de confrontar as idéias, os fatos, as experiências à luz do cristianismo que, para ele, é uma consciência moderna.


Seu pensamento baseia-se em sua cultura incomum e nos complexos sentimentais profundos.  Através de si e de seus problemas quer encontrar uma explicação para a sua existência. Mas não bastava para Kierkegaard analisar o conteúdo da consciência para se encontrar aí uma filosofia da existência.  Tem-se, também, que ter idéias.  E entre as idéias, tem que se estabelecer uma dialética.  E é através desta dialética que ele percebe os estágios da existência: estágio estético, estágio moral e estágio religioso.
O Estágio Estético.  Para Kierkegaard, este era o estágio básico na realidade humana.  Segundo o autor, os valores estéticos eram originários do romantismo e influenciavam muitos de seus contemporâneos.  A caracterização deste estágio, ao contrário do que pode parecer em um primeiro momento, é de difícil distinção, pois é marcado pela diversidade.  Ao citar alguns personagens das obras filosóficas e clássicas como estéticos Kierkegaard demonstra esta diversidade, pois eles podem ser desde crianças audaciosas das fábulas, até sedutores insaciáveis como o clássico Dom Juan.  Mas um ponto, diz Kierkegaard, será comum no caráter dos estéticos: “o desejo”. Este desejo poderia passar pela satisfação sentimental, material, entre outros, mas em última instância, o desejo erótico.

Kierkegaard irá desenvolver o estágio estético com autoridade da experiência.  Pois no período que sucede a morte de seu pai ele se entregou a esta forma de vida, contrariando de certo modo, seu estilo de vida.  Entretanto, a partir do momento que sente em seu coração a desesperança de uma vida feliz através da estética, tornar-se-á um forte opositor de tal princípio de vida e algumas de suas obras irão claramente opor-se ao estágio estético (o Banquete é um exemplo).

O tipo de vida estético não proporciona realização àquele que lhe dedica a vida.  Kierkegaard percebeu que neste estágio de vida os objetivos não são claros e se perdem por não haver satisfação.  É então que se pode perguntar: Quem é feliz realmente?  Dos que buscam o prazer, o mais feliz não será aquele que não experimentou felicidade alguma?

O Estágio Moral ou Ético.  Ao contrário da dificuldade na definição do estágio estético, o estágio ético ou moral é de fácil definição.  Isto porque, em princípio, o estágio ético é marcado essencialmente, por uma vida coerente governada por normas morais.  Entretanto, diferindo-se do estético, no estágio ético não se encontram personagens com facilidade na literatura.  Em resposta a este vazio, Kierkegaard oferece-nos o original Wielhem em A Alternativa.  O herói do estágio ético será “o herói da vida conjugal”.  Wielhem defende na obra a sua própria causa: o casamento feliz.

Misturando na tese de Wielhem, a teoria do amor romântico com a teoria de um acordo econômico e social, Kierkegaard da forma ao amor cristão, um dom generoso entre duas pessoas que reconheceram em Deus, o responsável por esta união.  A tese de Wielhem que defende o casamento confunde-se com um discurso de exaltação ao amor.  O casamento será então, um meio pelo qual duas pessoas fazem uma opção tendo Deus como testemunha e são introduzidos na realidade da vida.  E é aqui que se evidencia conscientemente a vida ética.  Terá o homem que empenhar toda força para manter a vida conjugal.

A partir desta consciência de vida ética, começa a aparecer no pensamento de Kierkegaard sua traumática experiência amorosa e a dificuldade em entender e relacionar-se com o sexo feminino.  Para ele, a manutenção da vida conjugal, característica essencial da ética, será dificultada ao homem pela presença feminina, que para o filósofo, tem enorme dificuldade de se situar em uma relação definida. Kierkegaard vai mais longe, para ele a mulher situa-se naturalmente no estágio estético, onde, aliás, ela é objeto de desejo em última instância.  A plena revelação da mulher só será possível no estágio religioso.

O casamento torna-se então um grande risco necessário para a vida ética, por ser a única forma de se atingir tal estágio de vida.  Porém, a derrocada do casamento trás consigo a derrocada de toda a moralidade.  O homem então deve entender que o heroísmo moral da vida cotidiana será a única forma de desviar a fragilidade feminina dos caminhos de oscilação e perigo que poderão induzi-la à sua natureza estética e desta forma comprometer a relação conjugal.  Assim sendo, no pensamento de Kierkegaard, só o heroísmo aliado a ajuda de Deus, pode salvar a vida conjugal e consequentemente, a forma de vida moral.

O Estágio Religioso.  Mas para Kierkegaard, segundo a tese de Wielhem, o casamento não pode ser a única solução.  Sendo assim, pode existir a solução excepcional, pois aquele que renuncia a vida conjugal para responder a uma vocação religiosa, atinge um estágio de existência superior à de um marido mais perfeito.  Entra-se então nos domínios do estágio religioso.  A religião sempre foi para Kierkegaard uma fonte de inspiração e um espaço de reflexão e existência.  Desde a infância é conduzido pela família na prática religiosa.  Mais tarde, parte para a especulação religiosa ao se iniciar em um curso de teologia, visando à carreira eclesiástica.  A religiosidade pessoal do filósofo é composta por duas realidades: por um lado o cristianismo com seus dogmas e seus paradoxos.  Por outro lado, a tensão psicológica com que ele e sua família recebem estes dogmas e paradoxos do cristianismo em meio aos problemas existenciais profundos e traumáticos no ambiente familiar: angústia, medo e tremor.

A influência da religião em sua vida ficará assente em sua obra.  Desde o início, ele deixa claro que se trata de um autor religioso.  Neste sentido, Tremor e Temor torna-se um bom exemplo para a introdução ao mundo religioso de Kierkegaard.  Esta obra citada é escrita em um momento de algum otimismo por parte do autor.  Seu objetivo é mostrar através do sacrifício de Abraão que o estágio ético não é absoluto, pelo contrário fica até ofuscado diante de exigências superiores do estágio religioso.  O autor então argumenta que Abraão não hesitou em sacrificar Isaac e que este desprendimento foi exatamente o motivo pelo qual seu filho veio a ser restituído.  Será que semelhante renuncia feita por Kierkegaard em relação à noiva no passado pudesse a trazer de volta então?  A resposta a este questionamento só seria possível se Kierkegaard se elevasse ao plano da fé como o fez Abraão.  Desta forma, percebe-se que o estágio religioso é marcado pelo subjetivismo.

Como apelo à subjetividade profunda, o estágio religioso pratica uma devoção ao Deus que não aparece e comunica-se através do silêncio que provem desta relação.  Isto nos faz perceber que os dois primeiros estágios são mais populares do que o terceiro.  Kierkegaard entendia que os estágios estéticos e éticos não podiam existir sem o estágio religioso.  Em outras palavras, o religioso estava presente tanto no estético quanto no ético.  O religioso é um estágio conseqüente, pois é a partir da desordem dos estágios inferiores que se tem a possibilidade de encontrar a realidade superior da vida religiosa.

Entretanto, apesar da vida religiosa ser conseqüência dos dois primeiros estágios, requer-se por ela uma decisão.  Kierkegaard entende que teve que fazer uma escolha, muito clara, pela vida religiosa.  Entre as várias vocações que estavam diante de si, ele escolheu a vida religiosa, que para o filósofo torna-se a forma de vida mais difícil, entre outras coisas, por ser marcada pela solidão e pelo olhar atento de Deus.  Nesta sua escolha pela vida religiosa solitária, Kierkegaard foi conduzido a uma crise com os oficiais da Igreja Luterana (Igreja oficial da Dinamarca).  O filósofo compreendeu que acontecia em seu tempo a descristianização do mundo.  Sua luta solitária, contra pastores e bispos oficiais preocupados com suas carreiras eclesiásticas, aumentará o seu sofrimento e o fará alvo das chacotas populares, aumentando, a cada dia, a sua solidão.

A solidão no sofrimento torna-se o centro da meditação de Kierkegaard.  A partir da solidão e do sofrimento o filósofo desenvolve o sentido da subjetividade e da existência que vem do seu interior.  Na luta contra o luteranismo oficial, desenvolve um sistema religioso doloroso que se diferencia em muito da religião que se praticava.  O hegelianismo, que outrora o influenciou, é agora alvo de duras críticas dirigidas por Kierkegaard.  Ele não aceitava a aproximação da Igreja com o romantismo de Hegel.  Kierkegaard aponta para o erro imbecil no âmbito religioso, segundo ele não havia qualquer compatibilidade entre o cristianismo como um momento histórico que se devia ultrapassar, conforme o pensamento dos romancistas.  Não, o cristianismo não pode ser considerado apenas como um acontecimento histórico.


EVERTON