terça-feira, 17 de maio de 2011

Filosofoa da Religião

A Filosofia da Religião  é um ramo filosófico que investiga a esfera espiritual inerente ao homem, do ponto de vista da metafísica, da antropologia e da ética. Ela levanta questionamentos fundamentais, tais como: o que é a religião? Deus existe? Há vida depois da morte? Como se explica o mal? Estas e outras perguntas, idéias e postulados religiosos são estudados por esta disciplina.
Há uma infinidade de religiões, compostas de distintas modalidades de adoração, mitologias e experiências espirituais, mas geralmente os estudiosos se concentram na pesquisa das principais vertentes espirituais, como o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo, pois elas oferecem um sistema lógico e elaborado sobre o comportamento do planeta e de todo o Universo, enquanto as orientais normalmente se centram em uma determinada filosofia de vida. Os filósofos têm como objetivo descobrir se o olhar espiritual sobre o Cosmos é realmente verdadeiro.
Em suas pesquisas o filósofo da religião adota como instrumentos teóricos a metodologia histórico-crítica comparativa, que contrapõe as mais diversas religões, espacial e temporalmente, para perceber suas semelhanças e o que as distingue, logrando assim visualizar o núcleo central dos eventos religiosos; a filológica, que realiza a investigação dos vários idiomas, comparando-os e buscando expressões usadas para se referir ao sagrado, estabelecendo assim o que elas têm em comum; e a antropológica, que resgata o passado espiritual dos povos ancestrais e dos contemporâneos, seus institutos, suas convicções, seus ritos e seus valores. Cabe à Filosofia da Religião realizar uma correta associação destes distintos métodos, para assim perceber claramente o que é essencial nas religiões.
Em todas as religiões vigentes no Ocidente há algo em comum, a fé em Deus. A Divindade é vista como um Ser sem corpo e eterno, criador de tudo que há, extremamente generoso e perfeito, todo-poderoso, ou seja, onipotente, conhecedor de tudo, portanto onisciente, presente em toda parte, melhor dizendo, onipresente. Esta é a imagem teísta de Deus, aquela que proclama sua existência. São Tomás de Aquino defende pelo menos cinco argumentos a favor da presença de Deus no Universo, entre eles o ontológico, o cosmológico e o do desígnio. Estas idéias foram renovadas pelos pensadores modernos Alvin Plantinga e Richard Swinburne, que tornaram estes conceitos mais complexos. A compreensão de Deus pode ser racional, portanto do âmbito da Teologia Natural, ou percebida do ponto de vista da fé, constituindo a Teologia Revelada.
Anteriormente ao século XX, a trajetória filosófica ocidental procurava explicar alguns ângulos das tradições pagãs, do judaísmo e do Cristianismo, ao passo que no Oriente, em práticas espirituais como o hinduísmo, o budismo e o taoísmo, não é fácil perceber até que ponto uma pesquisa é de natureza religiosa ou filosófica. Não é fácil para esta disciplina delimitar um objeto de estudo adequado, do ponto de vista religioso. Segundo estes filósofos, mesmo que se alcance uma caracterização correta de Deus, ainda resta encontrar uma razão para se pretender sua existência.
Embora na Idade Média tenham surgido muitas teorias que se pretendem capazes de provar que Deus existe, a partir do século XVIII houve uma guinada na mentalidade humana, e muitos dos argumentos defendidos na era medieval perderam sua validade. Assim, muitos filósofos religiosos têm suas próprias prevenções contra a cultura religiosa popular, como Kant e Feuerbach, o qual estimulou o estudo das religiões do ângulo social e antropológico destas convicções espirituais, caminho seguido até hoje por grande parte dos filósofos desta disciplina.
                                                everton

sexta-feira, 13 de maio de 2011

LOGOTERAPIA VERSUS FILOSOFIA???

A Logoterapia é uma linha da psicologia. Portanto, ela não é Filosofia, entretanto usa instrumentos nos quais chamamos de conceitos para embasar as analises teóricas que os psicólogos desenvolvem com os pacientes. Assim como existe a psicanálise de Freud, a terapia centrada no cliente de Rogers, ou a psicologia analítica de Jung, temos a logoterapia criada pelo psiquiatra vienense Dr. Viktor E. Frankl.O trabalho da logoterapia consiste basicamente em ajudar as pessoas a encontrarem o sentido de suas vidas.Existem dois tipos de pessoas: as que dizem sim à vida, a despeito de suas vicissitudes, e as que dizem não à vida, a despeito das boas coisas que lhe acontecem. As que dizem sim geralmente sente-se satisfeitas e felizes, enquanto as que dizem não geralmente sente-se alienadas, frustradas e vazias.É importante perceber que podemos mudar de uma atitude negativa para uma positiva.Se formos do tipo de pessoas que dizem não à vida, seja através de atitudes, ou comportamentos inadequados, isso não significa que estejamos condenados a permanecermos assim.A MUDANÇA É POSSÍVEL. O Dr. Frankl acreditava que para encarar a vida de maneira positiva é preciso ter consciência de que a vida tem sentido em quaisquer circunstâncias, e que temos a capacidade de encontrar esse sentido em nossas vidas.Podemos nos erguer das dificuldades, das enfermidades, do vício, da tristeza, do vazio e dos golpes do destino, se pudermos ver sentido em nossa existência.Frankl denomina seu sistema de "Logoterapia", ou seja, a saúde através do sentido.A logoterapia ajuda as pessoas a dizerem sim à vida, quer seu sofrimento provenha de desajustamentos em suas relações humanas, problemas com o trabalho, doença, quer pela morte de um ente querido, quer por dificuldades auto-impostas como a hipocondria ou dependência de álcool e drogas.Não é o homem que dá sentido à sua vida, mas sim é a vida quem a todo o momento nos cobra seu sentido.Estamos buscando sentido em nossas vidas?Como encontrá-lo?Onde encontrá-lo?A logoterapia ajuda, praticamente, através de seus métodos e teoria, a responder essas perguntas de ordem existencial. Afirma que somos indivíduos únicos, que atravessamos a vida numa série de situações únicas e que cada momento oferece um sentido para preencher - a oportunidade para agir significativamente.Isto pode ser conseguido através do que fazemos, do que sentimos, e também através das atitudes que assumimos diante dos acontecimentos, mesmo os caóticos.O sentido da vida consiste em realizar valores e para  realizá-los é preciso conhecê-los. Alguns filósofos existencialistas como "Sartre", entre outros, defendem que a vida não tem sentido, mas que os seres humanos precisam conduzir suas vidas de modo significativo. Portanto, nessa visão, seríamos nós quem daríamos à nossa vida o sentido que escolhêssemos. A logoterapia afirma que o sentido da vida existe, de forma incondicional, e o que nós devemos fazer é descobri-lo.Se déssemos nós mesmos o sentido, tomando decisões, diz Frankl, a vida seria um borrão inexpressivo, como as figuras do teste de Rorschach, nas quais projetaríamos qualquer sentido que quiséssemos.A logoterapia vê a vida como um quebra-cabeças com uma figura escondida - semelhante ao desenho de linhas confusas formando árvores, nuvens, flores, casas, com uma legenda que diz: "encontre a bicicleta neste desenho". Temos, então, que virar o desenho em várias direções até descobrir a bicicleta oculta na miscelânea de traços.Da mesma maneira, devemos virar nossa vida em todas as direções até encontrar o sentido.Este sentido não nos pode ser dado pela sociedade ou por nossos pais. O psiquiatra não pode prescrevê-lo como se fosse uma pílula. Ele pode descrever respostas significativas à nossa situação, mas compete a nos descobrir o que nos é significativo.EVERTON


quarta-feira, 11 de maio de 2011

VIDA E OBRAS DO EXISTENCIALISTA NIETZSCHE

Vida e Obra

Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu a 15 de outubro de 1844 em Röcken, localidade próxima a Leipzig. Karl Ludwig, seu pai, pessoa culta e delicada, e seus dois avós eram pastores protestantes; o próprio Nietzsche pensou em seguir a mesma carreira.
Em 1849, seu pai e seu irmão faleceram; por causa disso a mãe mudou-se com a família para Naumburg, pequena cidade às margens do Saale, onde Nietzsche cresceu, em companhia da mãe, duas tias e da avó. Criança feliz, aluno modelo, dócil e leal, seus colegas de escola o chamavam "pequeno pastor"; com eles criou uma pequena sociedade artística e literária, para a qual compôs melodias e escreveu seus primeiros versos.
Em 1858, Nietzsche obteve uma bolsa de estudos na então famosa escola de Pforta, onde haviam estudado o poeta Novalis o filósofo Fichte (1762-1814). Datam dessa época suas leituras de Schiller (1759-1805), Hölderlin (1770-1843) e Byron (1788-1824); sob essa influência e a de alguns professores, Nietzsche começou a afastar-se do cristianismo. Excelente aluno em grego e brilhante em estudos bíblicos, alemão e latim, seus autores favoritos, entre os clássicos, foram Platão (428-348 a.C.) e Ésquilo (525-456 a.C.). Durante o último ano em Pforta, escreveu um trabalho sobre o poeta Teógnis (séc. VI a.C.). Partiu em seguida para Bonn, onde se dedicou aos estudos de teologia e filosofia, mas, influenciado por seu professor predileto, Ritschl, desistiu desses estudos e passou a residir em Leipzig, dedicando-se à filologia. Ritschl considerava a filologia não apenas história das formas literárias, mas estudos das instituições e do pensamento. Nietzsche seguiu-lhe as pegadas e realizou investigações originais sobre Diógenes Laércio (séc. III), Hesíodo (séc. VIII a.C.) e Homero. A partir desses trabalhos foi nomeado, em 1869, professor de filologia em Basiléia, onde permaneceu por dez anos. A filosofia somente passou a interessá-lo a partir da leitura de O Mundo como Vontade e Representação, de Schopenhauer (1788-1860). Nietzsche foi atraído pelo ateísmo de Schopenhauer, assim como pela posição essencial que a experiência estética ocupa em sua filosofia, sobretudo pelo significado metafísico que atribui à música.Em 1867, Nietzsche foi chamado para prestar o serviço militar, mas um acidente em exercício de montaria livrou-o dessa obrigação. Voltou então aos estudos na cidade de Leipzig. Nessa época teve início sua amizade com Richard Wagner (1813-1883), que tinha quase 55 anos e vivia então com Cosima, filha de Liszt (1811-1886). Nietzsche encantou-se com a música de Wagner e com seu drama musical, principalmente comTristão e Isolda e com Os Mestres Cantores. A casa de campo de Tribschen, às margens do lago de Lucerna, onde Wagner morava, tornou-se para Nietzsche lugar d "refúgio e consolação". Na mesma época, apaixonou-se por Cosima, que viria a ser, em obra posterior, a "sonhada Ariane". Em cartas ao amigo Erwin Rohde, escrevia: "Minha Itália chama-se Tribschen e sinto-me ali como em minha própria casa". Na universidade, passou a tratar das relações entre a música e a tragédia grega, esboçando seu livro O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música.






domingo, 8 de maio de 2011

MORTE E VIDA SEVERINA...

—  Essa cova em que estás,  
com palmos medida,  
é a cota menor  
que tiraste em vida.  
——  é de bom tamanho,  
nem largo nem fundo,  
é a parte que te cabe  
neste latifúndio.  
——  Não é cova grande.  
é cova medida,  
é a terra que querias  
ver dividida.  
——  é uma cova grande  
para teu pouco defunto,  
mas estarás mais ancho  
que estavas no mundo.  
——  é uma cova grande  
para teu defunto parco,  
porém mais que no mundo  
te sentirás largo.  
——  é uma cova grande  
para tua carne pouca,  
mas a terra dada  
não se abre a boca.  
  
  
——  Viverás, e para sempre  
na terra que aqui aforas:  
e terás enfim tua roça.  
——  Aí ficarás para sempre,  
livre do sol e da chuva,  
criando tuas saúvas.  
——  Agora trabalharás  
só para ti, não a meias,  
como antes em terra alheia.  
——  Trabalharás uma terra  
da qual, além de senhor,  
serás homem de eito e trator.  
——  Trabalhando nessa terra,  
tu sozinho tudo empreitas:  
serás semente, adubo, colheita.  
——  Trabalharás numa terra  
que também te abriga e te veste:  
embora com o brim do Nordeste.  
——  Será de terra  
tua derradeira camisa:  
te veste, como nunca em vida.  
——  Será de terra  
e tua melhor camisa:  
te veste e ninguém cobiça.  
——  Terás de terra  
completo agora o teu fato:  
e pela primeira vez, sapato.  
——  Como és homem,  
a terra te dará chapéu:  
fosses mulher, xale ou véu.  
——  Tua roupa melhor  
será de terra e não de fazenda:  
não se rasga nem se remenda.  
——  Tua roupa melhor  
e te ficará bem cingida:  
como roupa feita à medida.  
  
  
——  Esse chão te é bem conhecido  
(bebeu teu suor vendido).  
——  Esse chão te é bem conhecido  
(bebeu o moço antigo)  
——  Esse chão te é bem conhecido  
(bebeu tua força de marido).  
——  Desse chão és bem conhecido  
(através de parentes e amigos).  
——  Desse chão és bem conhecido  
(vive com tua mulher, teus filhos)  
——  Desse chão és bem conhecido  
(te espera de recém-nascido).  
  
  
——  Não tens mais força contigo:  
deixa-te semear ao comprido.  
——  Já não levas semente viva:  
teu corpo é a própria maniva.  
——  Não levas rebolo de cana:  
és o rebolo, e não de caiana.  
——  Não levas semente na mão:  
és agora o próprio grão.  
——  Já não tens força na perna:  
deixa-te semear na coveta.  
——  Já não tens força na mão:  
deixa-te semear no leirão.  
  
  
——  Dentro da rede não vinha nada,  
só tua espiga debulhada.  
——  Dentro da rede vinha tudo,  
só tua espiga no sabugo.  
——  Dentro da rede coisa vasqueira,  
só a maçaroca banguela.  
——  Dentro da rede coisa pouca,  
tua vida que deu sem soca.  
  
  
——  Na mão direita um rosário,  
milho negro e ressecado.  
——  Na mão direita somente  
o rosário, seca semente.  
——  Na mão direita, de cinza,  
o rosário, semente maninha,  
——  Na mão direita o rosário,  
semente inerte e sem salto.  
  
  
——  Despido vieste no caixão,  
despido também se enterra o grão.  
——  De tanto te despiu a privação  
que escapou de teu peito à viração.  
——  Tanta coisa despiste em vida  
que fugiu de teu peito a brisa.  
——  E agora, se abre o chão e te abriga,  
lençol que não tiveste em vida.  
——  Se abre o chão e te fecha,  
dando-te agora cama e coberta.  
——  Se abre o chão e te envolve,  
como mulher com que se dorme.  

quinta-feira, 5 de maio de 2011

FILOSOFIA DA MÚSICA...





A filosofia da música é o estudo acerca do que é a música e de como esta tem significado. Associadas a estes assuntos abrangentes e abstractos estão questões que têm a ver com a composição, a execução e a audição:
  • O que é a beleza na música?
  • Quais os efeitos da música em indivíduos, grupos e sociedades inteiras?
  • Que relações há entre a música, a natureza do som e a natureza do cosmos?
  • Será que a música é uma linguagem e, se o for, de que tipo são as suas mensagens e quem é a sua fonte?
  • Quais as bases da avaliação de composições e execuções (isto é, da crítica)?
  • Será que algumas tradições musicais são superiores a outras?
  • O que é uma obra musical?
Estes são os tópicos que ocuparam os filósofos (na tradição ocidental) a partir dos gregos, e embora a música e a filosofia tenham ambas sofrido muitas mudanças durante esse período, as teorias essenciais acerca da natureza da música continuaram a resistir admiravelmente durante muito tempo, o que significa também que se mostraram notavelmente difíceis de justificar ou desacreditar.
Algumas dessas teorias têm a ver com a expressão. Se afirmamos (e de nenhum modo todos os filósofos o afirmam) que a música exprime sentimentos, é ainda bastante discutível o que isto signifique. Será que os compositores traduzem deliberadamente para notas no papel sentimentos que os executantes então traduzem novamente para sentimentos? Ou será que tudo isto acontece inadvertidamente, enquanto as pessoas envolvidas se ocupam de outros assuntos, de forma, execução e compreensão? Em qualquer dos casos, como ocorrem estas traduções? Haverá algum código? Se há, será que depende da natureza do ouvido e do som ou da convenção? Será que a música imita o discurso e os gestos de uma pessoa agitada, ou será que tem uma linguagem expressiva própria? Devemos ver a sua expressão como algo que lhe pertence em vez de ao seu compositor? Será que evoca sentimentos em nós, encoraja a compaixão perante os sentimentos dos outros, ou nos dá uma compreensão destes sentimentos de uma maneira mais geral?
As alternativas ou complementos à teoria expressiva da música assumem essencialmente três formas, afirmando diferentemente que os significados da música têm a ver com a natureza do som e o tempo, que é um meio de comunicação com forças superiores (talvez divinas, talvez interiores à mente), ou que é um instrumento de pensamento acerca da constituição do universo. Teorias do último género dependem amiúde de ligações entre a música e a matemática, como na noção de “música das esferas”, mantendo que a música humana é uma imagem das grandiosas proporções das órbitas planetárias, ou na aplicação de sistemas numéricos à música. Tais teorias raramente são acerca dos meios pelos quais os números, hermeticamente selados na harmonia ou ritmo, transmitem as suas associações e significados ao ouvinte.
Por outro lado, as teorias formalistas da música que a encaram como auto-suficiente receberam apoio e encorajamento nos séculos XVII, XVIII e XIX a partir de uma compreensão alargada do som e da forma musical. Na verdade, a elaboração da forma musical nas obras de Brahms, Wagner e Mahler demonstra a força destas teorias, mesmo numa época em tão profunda sintonia com a expressividade da música — o que só mostra que é possível aos músicos manter opiniões divergentes, simultaneamente, acerca da sua arte. Para Wagner, pelo menos, não era menos evidentemente poderosa a teoria da música segundo a qual esta arrasta o numinoso para a área do imediatamente perceptível.
A capacidade de a música falar em muitas vozes diferentes — as vozes manifestas da polifonia ou as vozes mais submersas de diferentes participantes (compositor, executante, carácter ou personagem, a que se pode adicionar as vozes das tradições instrumentais, formais e nacionais) — é essencial ao que a tornou um assunto tão fascinante e desconcertante de discussão filosófica.
EVERTON

PLATÃO X ARISTÓTELES



Platão nasceu em Atenas no ano 428 a.C. Seus pais pertenciam a uma antiga e nobre descendência. Teve um temperamento de artista e de filósofo ao mesmo tempo, manifestação característica e elevada de gênio grego. Aos vinte anos, Platão travou relações com Sócrates, cujo ensino e amizade gozou durante oito anos. Quando discípulo de Sócrates, Platão estudou também os maiores pré-socráticos. Após a morte do mestre, começou a viajar, dando um vasto giro para se instruir através do Egito, da Itália meridional e da Sicília. Na Sicília tentou inutilmente realizar a sua utopia política junto à corte de Siracusa. Pelo ano de 368 fundava em Atenas a sua famosa escola, que tomou o nome de Academia, dedicando-se inteiramente à especulação metafísica, ao ensino filosófico e à redação de suas obras até à morte em 347 a.C. A atividade literária de Platão abrange mais de cinqüenta anos; escreveu treze cartas e trinta e seis diálogos, que representam a obra-prima da sua atividade artística e filosófica.
Platão, como também Sócrates, pensa que a filosofia tem um fim prático, moral; é a grande ciência que resolve o problema da vida. Este fim prático, porém, realiza-se só intelectualmente, através da especulação, do conhecimento, da ciência. Mas, diversamente de Sócrates, que limitava a investigação filosófica, conceitual, ao campo antropológico e moral, Platão estende tal investigação ao campo metafísico e cosmológico, quer dizer, a toda a realidade. Como Sócrates, também Platão distingue um conhecimento sensível, a opinião, e um conhecimento intelectual, a ciência; particular e mutável o primeiro, universal e imutável o segundo. Entretanto Platão, diversamente de Sócrates, que faz derivar o segundo do primeiro, julga que o conhecimento intelectual não pode derivar do conhecimento sensível, por terem precisamente estes dois conhecimentos características opostas. Diversamente do mestre, pois, que ignora a metafísica, Platão dá tanto a um quanto a outro conhecimento, um objeto correspondente, um fundamento ontológico: ao conhecimento sensível o mundo material, multíplice e mutável; ao conhecimento intelectual o mundo ideal, universal e imutável.
AS IDÉIAS = O sistema metafísico de Platão centraliza-se e culmina no mundo divino das idéias, a que é contraposta a matéria, obscura e incriada. Entre as idéias e a matéria estão  o Demiurgo - arquiteto do universo - e as almas, donde desce das idéias para a matéria o tanto de racionalidade que nela aparece. A divindade platônica é representada pelo mundo das idéias, e especialmente pela idéia do Bem, que ocupa o lugar de maior destaque. Pelo fato de que as idéias são conceitos personificados, transferidos da ordem lógica à ordem ontológica, terão consequentemente as características dos próprios conceitos: transcendentes à experiência, universais, imutáveis, e ordenados logicamente, sistematicamente entre si(dialética).
AS ALMAS = Como o Demiurgo, e em dependência dele, a alma tem uma função mediadora entre as idéias e a matéria, a que comunica ordem e vida. Platão distingue três espécies de almas:concupiscível(vegetativa), irascível(sensitiva), racional(inteligente), que são próprias, respectivamente, da planta, do animal e do homem; e no homem se acham reunidas hierarquicamente, enquanto ele é um ser vivo, sensitivo e dotado de intelecto. A alma racional está no corpo humano como em prisão, em exílio, a que é condenada por uma culpa cometida quando estava no mundo das idéias, sua pátria verdadeira, donde, em conseqüência dessa culpa, decaiu.
O MUNDO = O mundo material, o cosmos platônico, resulta da síntese de dois princípios opostos: as idéias e a matéria. O Demiurgo plasma o caos da matéria sobre o modelo das idéias eternas, introduzindo-lhe a alma, princípio de ordem e de vida. Platão é um pampsiquista, isto é, anima todo o universo: haveria, antes de tudo, uma alma do mundo, e, depois, partes dela, dependentes e inferiores, que seriam as almas dos astros, dos homens, etc.
Consoante a psicologia platônica, a natureza do homem é racional, e, por conseqüência, na razão o homem realiza a sua humanidade: a ação racional realiza o sumo bem que é, ao mesmo tempo, felicidade e virtude. Entretanto, esta natureza racional do homem encontra no corpo não um instrumento, e sim um obstáculo, que Platão explica mediante um dualismo filosófico-religioso de alma e corpo: o intelecto encontra um obstáculo no sentido, a vontade no impulso. A moral platônica, portanto, é uma moral de renúncia ao mundo - ascética - , e o homem realiza o seu destino além deste mundo, na contemplação do mundo das idéias. Nesta ascese moral, Platão distingue quatro virtudes fundamentais: a sabedoria, a fortaleza, a temperança, a justiça. Quanto ao destino das almas após a morte, julga Platão que as dos sábios, dos filósofos, que se libertaram inteiramente da sensibilidade, voltam para o mundo ideal; as dos homens mergulhados inteiramente na matéria, vão para um lugar de danação; as almas intermediárias se reincarnam em corpos mais ou menos nobres, conforme o bem ou o mal que fizeram.
Platão deriva da natureza humana a justificação da sociedade e do estado, visto que cada um precisa do auxílio moral e material dos outros; deve, portanto, estar unido com os outros. Desta variedade de necessidades humanas origina-se a divisão do trabalho e, consequentemente, a distinção do povo em classes, em castas, bem como a instituição da escravidão, para os trabalhos mais materiais, servis. Segundo Platão, o estado ideal deveria ser dividido em três classes sociais: a dos filósofos, conhecedores da realidade, aos quais cabe o governo da república; a dos guerreiros, a quem cabe a defesa interna e externa do estado, de conformidade com a ordem estabelecida pelos filósofos; a dos produtores - agricultores e artesãos - submetidos às duas classes precedentes, cabendo-lhes a conservação econômica do estado. Platão tinha compreendido que os interesses privados, domésticos, redundam efetivamente em contraste com os interesses sociais, estatais. E não hesita em sacrificar inteiramente a família e a riqueza dos particulares ao Estado; daí o assim chamado comunismo platônico, que não é materialista, econômico, e sim espiritual, ascético. Se a natureza do estado é, essencialmente, a de um organismo ético, o seu fim principal é pedagógico: o estado, antes de tudo, deve prover ao bem espiritual dos cidadãos, educando-os virtuosamente; e apenas secundariamente, instrumentalmente, se deve ocupar com o bem-estar dos cidadãos.A divindade platônica é constituída pelo mundo das idéias, ocupando o centro a idéia do Bem. Quanto à religião positiva grega, Platão hostiliza o antropomorfismo, admitindo entretanto um politeísmo astral, tendo ao centro o Demiurgo. As doutrinas estéticas de Platão são algo oscilantes entre uma valorização e uma desvalorização da arte. No conjunto do seu pensamento prevalece a desvalorização e por dois motivos, teorético um, prático outro. O motivo teorético é que a arte seria cópia de uma cópia: cópia do mundo empírico, que já é cópia do mundo ideal. Em suma, a arte copiaria os fenômenos, não as essências como as ciências fazem. O motivo prático é que a arte, dada esta sua natureza teorética inferior, impura fonte gnosiológica, torna-se igualmente danosa no campo moral: com efeito, operando cegamente sobre o sentimento, a arte nos atrai para o verdadeiro assim como para o falso, para o bem como para o mal.
A escola filosófica fundada por Platão, a Academia, sobreviveu-lhe por quase um milênio, até o século VI dC. A  Academia platônica divide-se comumente em antiga, média e nova. A antiga academia preocupa-se com uma sistematização mais completa do pensamento platônico e com uma maior valorização da experiência. A média academia toma uma tendência cética, sobretudo graças a Carnéadas. A nova academia orienta-se especialmente para o ecletismo. Chega-se, entrementes, ao início da era vulgar; a academia platônica, porém, sobreviverá ainda e tomará uma última forma no neoplatonismo.

ARISTÓTELES

Este grande filósofo grego nasceu em Estagira no ano 384 a.C. Aos 18 anos entrou na Academia Platônica, onde ficou por vinte anos, até à morte do mestre. Em 343 foi convidado por Filipe, rei da Macedônia, para educar o filho Alexandre, chamado mais tarde, Magno. Voltando para Atenas em 335, aí fundou sua escola famosa, chamada Liceu e também escola peripatética. Em 323 teve de abandonar Atenas por motivos políticos, retirando-se para Eubéia, onde morreu em 332 a.C. com 62 anos de idade. Aristóteles foi especialmente um homem de cultura e de pensamento, que se isola da vida prática, para a pesquisa científica. A sua atividade literária foi vasta e intensa, como a sua cultura e o seu gênio; chegam perto de um milheiro as obras escritas por ele, das quais ficou a parte, não quantitativamente, mas qualitativamente mais importante, a saber: os tratados científicos elaborados para o ensino. A primeira edição completa das obras dele é a de Andrônico de Rodes - pelos fins da era antiga - que classifica os escritos aristotélicos da maneira seguinte: lógica, física, metafísica, moral, política, retórica e poética. As obras doutrinais dele manifestam um grande rigor científico, exposição e expressão breve e aguda, clara e ordenada, maravilhosa perfeição da terminologia filosófica.
Segundo ele, a filosofia é essencialmente teorética, deve decifrar o enigma do universo: o seu problema fundamental é o problema do ser, não o da vida. A filosofia divide-se em teorética, prática e poética, e abrange todo o saber humano. A teorética divide-se, por sua vez, em física, matemática e filosofia primeira(metafísica e teologia); a prática divide-se em ética e política; a poética em estética e técnica. Pelo que concerne ao problema gnosiológico, a ciência, a filosofia têm como objeto o universal, o necessário, isto é, a forma, a essência das coisas existentes na realidade. Objeto essencial da lógica aristotélica é o processo de derivação, demonstração, dedução ideais do particular pelo universal, que corresponde a um processo de derivação real no mundo das coisas: a sua expressão clássica é o SILOGISMO. Segundo ele, porém, diversamente de Platão, os elementos  primeiros do conhecimento, da ciência - conceitos e juízos - têm que ser, num caso e noutro, tirados da experiência. Assim sendo, compreende-se como Aristóteles, ao lado da doutrina da dedução, foi levado a elaborar, na lógica, uma doutrina da indução. Não é ela por certo efetivamente completa, mas pode ser integrada logicamente segundo o espírito profundo da filosofia aristotélica.
A metafísica aristotélica é a ciência do ser como ser, isto é, do ser em geral(ontologia=metafísica geral).  Ciência  de Deus , do homem e do mundo(Metafísica especial=cosmologia, psicologia e teologia). As questões principais da metafísica geral aristotélica podem-se reduzir a quatro: potência e ato: potência significa não-ser atual e capacidade de ser: ato significa ser efetivo, realização de uma possibilidade. Todo ser, salvo o ser perfeitíssimo, é umasíntese(sínolo) de potência e ato. A passagem da potência ao ato é o vir-a-ser. Matéria e forma: a matéria é a potência e a forma é o ato no mundo material. A matéria é, portanto, o princípio de indeterminação, que é determinado pela forma (essência, espécie). Todo ser material resulta da síntese de matéria e forma(substância. Particular e universal: a particularidade, a singularidade, a individualidade das várias substâncias depende da matéria, que multiplica precisamente em muitos indivíduos a universalidade da forma. Motor e coisa movida: o movimento, o vir-a-ser, a mudança, é a passagem da potência ao ato, da matéria à forma. A fim de que esta passagem se realize, para que haja movimento, vir-a-ser, mudança, é preciso um motor, uma causa da própria passagem, até que, de causa em causa, se chegue a Deus, ato puro, motor imóvel do universo.
Uma questão geral da física aristotélica como filosofia da natureza, é a análise dos vários tipos de movimento, mudança que já sabemos consistir na passagem da potência ao ato, realização de uma possibilidade. Outra e também importantíssima questão desta física concerne ao espaço e ao tempo, concebidos como reais por Aristóteles: não, porém, como substâncias, mas como relações entre substâncias. Uma questão fundamental da filosofia natural aristotélica é a referente à finalidade, à ordem da natureza. Aristóteles é um autêntico afirmador da doutrina da finalidade, com base na doutrina da causa final.
Objeto principal da pscicologia aristotélica é o mundo vivente, que tem como princípio a alma, e se distingue essencialmente do mundo inorgânico, mineral. Aristóteles distingue uma alma vegetativa, própria das plantas; uma alma sensitiva, própria dos animas; uma alma racional, própria do homem, e que reúne em si também as funções características das duas almas precedentes. O homem é uma unidade substancial de alma e corpo, em que a alma desempenha o papel de forma com respeito à matéria, esta constituindo o corpo. O que caracteriza a alma humana é a racionalidade, a inteligência, o pensamento, pelo que ela é espírito e deve ser imortal. As faculdades fundamentais do espírito humano são duas: a teorética, cognoscitiva, contemplativa; e a prática, operativa, ativa. Cada uma delas, pois, se desdobra em dois graus, sensitivo e intelectivo, se levar em conta que o homem é um espírito unido, substancialmente, ao corpo. Teremos, assim, um conhecimento sensível e um conhecimento intelectual, e dois tipos de atividades práticas: a tendência e a vontade.
Objeto próprio da teologia é o motor imóvel, o ato puro, o pensamento do pensamento, isto é, Deus. Aristóteles chega a Deus mediante uma sólida demonstração, que parte da experiência imediata, da indiscutível realidade do devir, da passagem da potência ao ato. Todo devir demanda necessariamente uma causa, e esta uma outra causa ainda; e, assim por diante, até se chegar a um ser que não vem-a-ser, a um motor em ato, a um puro ato, que, de outra forma, deveria ser movido por sua vez. Da análise do conceito de Deus, concebido como primeiro motor imóvel, Aristóteles deduz logicamente a natureza essencial de Deus. Antes de tudo, Deus concebido como ato puro, perfeição absoluta e, depois, concebido como pensamento do pensamento, conhecimento de si mesmo: nesta autocontemplação imutável e ativa está a beatitude divina. Se Deus é mera atividade teorética, tendo como objeto unicamente a própria perfeição, não conhece o mundo imperfeito, e menos ainda atua sobre ele como criador e providência. O Deus de Aristóteles atua sobre o mundo, por Ele movido, não como causa eficiente, operante, mas como causa final, atraente.


Conforme a metafísica aristotélica, todo ser tende necessariamente à realização da sua natureza, à concretização plena da sua forma: e nisto está o seu fim, o seu bem, a sua felicidade e, por conseqüência, a sua lei. Visto ser a razão a essência  característica do homem, realiza ele a sua natureza vivendo racionalmente, e sendo disto consciente. E, desta maneira, ele alcança a felicidade e a virtude. Logo, o fim do homem é a felicidade, para a qual é necessária a virtude, que, por sua vez necessita da razão. A característica da ética aristotélica é a harmonia entre paixão e razão, virtude e felicidade; e também a doutrina de que a virtude é um hábito racional. Enfim, a ética aristotélica reconhece a primazia das virtudes dianoéticas, contemplativas, sobre as virtudes éticas, ativas; a supremacia do conhecimento e do intelecto sobre a prática e a vontade. O  Estado é um organismo moral, condição e complemento da atividade moral individual. A política, todavia, é distinta da moral; pois, esta tem como objeto o indivíduo, aquela a coletividade: a ética é a doutrina moral individual, a política é a doutrina moral social. O estado é composto pela comunidade das famílias, como os diversos indivíduos compõem as famílias. Segundo ele, a família é constituída de quatro elementos: os filhos, a mulher, os bens e os escravos; fora naturalmente o chefe, a quem cabe a direção geral. A fim de que a propriedade seja produtora, são necessários instrumentos animados e inanimados: os animados seriam os escravos, a que Aristóteles não nega a natureza humana, mas não lhes reconhece os direitos humanos, por causa da atividade material deles. O estado provê inicialmente a satisfação daquelas necessidades materiais, negativas e positivas, defesa e organização, que não se podem de outro modo realizar; mas o seu fim é essencialmente espiritual, pedagógico. O Deus aristotélico é representado pelo Ato Puro, admitindo Aristóteles outros deuses subordinados a este: os deuses astrais, inteligências animadoras das estrelas. Não obstante este teísmo superior, Aristóteles deixa ao povo a religião positiva, antropomórfica, a ele adaptada, sem correção alguma. Aristóteles, como Platão, considera a arte como imitação. Entretanto, não imitação da imitação, como é o fenômeno, o sensível platônico; mas imitação direta da própria idéia, imitação do inteligível imanente no sensível, imitação da forma imanente na matéria. Na arte, este inteligível, universal, é encarnado concretizado em um sensível, em um particular e, destarte, tornado, intuitivo, graças ao artista. A escola peripatética - o Liceu - não teve a longa duração e a variedade de orientações da academia platônica, e dedicou-se especialmente à indagação empírica, naturalista, histórica. Inversamente, o aristotelismo, mais do que o platonismo, terá uma fecunda vida fora e além do pensamento grego, isto é, no pensamento cristão, escolástico, tomista.
EVERTON

segunda-feira, 2 de maio de 2011

EXISTENCIALISMO...


 Soren Kierkegaard veio ao mundo em 5 de maio de 1813, em Copenhaga. Seu pai, comerciante, desposara em segunada núpcias sua própria doméstica. Ao contrário do primeiro casamento, que fora infértil, o segundo foi fecundo de nada menos que sete filhos. Soren fo i o último dos sete filhos, tendo nascido quando o pai já tinha ciquenta e seis anos e a mãe quarenta e quatro. Ao crescer era um profundo conhecedor de obras clássicas. Entre as fontes que o influenciava estava: as belas-artes, a filosofia clássica e moderna, a teologia, etc.  Pode-se perceber na obra de Kierkegaard um pensamento reflexivo bastante abrangente, fruto desta sua diversidade de fontes.  Toda esta abrangência tem o objetivo de confrontar as idéias, os fatos, as experiências à luz do cristianismo que, para ele, é uma consciência moderna.


Seu pensamento baseia-se em sua cultura incomum e nos complexos sentimentais profundos.  Através de si e de seus problemas quer encontrar uma explicação para a sua existência. Mas não bastava para Kierkegaard analisar o conteúdo da consciência para se encontrar aí uma filosofia da existência.  Tem-se, também, que ter idéias.  E entre as idéias, tem que se estabelecer uma dialética.  E é através desta dialética que ele percebe os estágios da existência: estágio estético, estágio moral e estágio religioso.
O Estágio Estético.  Para Kierkegaard, este era o estágio básico na realidade humana.  Segundo o autor, os valores estéticos eram originários do romantismo e influenciavam muitos de seus contemporâneos.  A caracterização deste estágio, ao contrário do que pode parecer em um primeiro momento, é de difícil distinção, pois é marcado pela diversidade.  Ao citar alguns personagens das obras filosóficas e clássicas como estéticos Kierkegaard demonstra esta diversidade, pois eles podem ser desde crianças audaciosas das fábulas, até sedutores insaciáveis como o clássico Dom Juan.  Mas um ponto, diz Kierkegaard, será comum no caráter dos estéticos: “o desejo”. Este desejo poderia passar pela satisfação sentimental, material, entre outros, mas em última instância, o desejo erótico.

Kierkegaard irá desenvolver o estágio estético com autoridade da experiência.  Pois no período que sucede a morte de seu pai ele se entregou a esta forma de vida, contrariando de certo modo, seu estilo de vida.  Entretanto, a partir do momento que sente em seu coração a desesperança de uma vida feliz através da estética, tornar-se-á um forte opositor de tal princípio de vida e algumas de suas obras irão claramente opor-se ao estágio estético (o Banquete é um exemplo).

O tipo de vida estético não proporciona realização àquele que lhe dedica a vida.  Kierkegaard percebeu que neste estágio de vida os objetivos não são claros e se perdem por não haver satisfação.  É então que se pode perguntar: Quem é feliz realmente?  Dos que buscam o prazer, o mais feliz não será aquele que não experimentou felicidade alguma?

O Estágio Moral ou Ético.  Ao contrário da dificuldade na definição do estágio estético, o estágio ético ou moral é de fácil definição.  Isto porque, em princípio, o estágio ético é marcado essencialmente, por uma vida coerente governada por normas morais.  Entretanto, diferindo-se do estético, no estágio ético não se encontram personagens com facilidade na literatura.  Em resposta a este vazio, Kierkegaard oferece-nos o original Wielhem em A Alternativa.  O herói do estágio ético será “o herói da vida conjugal”.  Wielhem defende na obra a sua própria causa: o casamento feliz.

Misturando na tese de Wielhem, a teoria do amor romântico com a teoria de um acordo econômico e social, Kierkegaard da forma ao amor cristão, um dom generoso entre duas pessoas que reconheceram em Deus, o responsável por esta união.  A tese de Wielhem que defende o casamento confunde-se com um discurso de exaltação ao amor.  O casamento será então, um meio pelo qual duas pessoas fazem uma opção tendo Deus como testemunha e são introduzidos na realidade da vida.  E é aqui que se evidencia conscientemente a vida ética.  Terá o homem que empenhar toda força para manter a vida conjugal.

A partir desta consciência de vida ética, começa a aparecer no pensamento de Kierkegaard sua traumática experiência amorosa e a dificuldade em entender e relacionar-se com o sexo feminino.  Para ele, a manutenção da vida conjugal, característica essencial da ética, será dificultada ao homem pela presença feminina, que para o filósofo, tem enorme dificuldade de se situar em uma relação definida. Kierkegaard vai mais longe, para ele a mulher situa-se naturalmente no estágio estético, onde, aliás, ela é objeto de desejo em última instância.  A plena revelação da mulher só será possível no estágio religioso.

O casamento torna-se então um grande risco necessário para a vida ética, por ser a única forma de se atingir tal estágio de vida.  Porém, a derrocada do casamento trás consigo a derrocada de toda a moralidade.  O homem então deve entender que o heroísmo moral da vida cotidiana será a única forma de desviar a fragilidade feminina dos caminhos de oscilação e perigo que poderão induzi-la à sua natureza estética e desta forma comprometer a relação conjugal.  Assim sendo, no pensamento de Kierkegaard, só o heroísmo aliado a ajuda de Deus, pode salvar a vida conjugal e consequentemente, a forma de vida moral.

O Estágio Religioso.  Mas para Kierkegaard, segundo a tese de Wielhem, o casamento não pode ser a única solução.  Sendo assim, pode existir a solução excepcional, pois aquele que renuncia a vida conjugal para responder a uma vocação religiosa, atinge um estágio de existência superior à de um marido mais perfeito.  Entra-se então nos domínios do estágio religioso.  A religião sempre foi para Kierkegaard uma fonte de inspiração e um espaço de reflexão e existência.  Desde a infância é conduzido pela família na prática religiosa.  Mais tarde, parte para a especulação religiosa ao se iniciar em um curso de teologia, visando à carreira eclesiástica.  A religiosidade pessoal do filósofo é composta por duas realidades: por um lado o cristianismo com seus dogmas e seus paradoxos.  Por outro lado, a tensão psicológica com que ele e sua família recebem estes dogmas e paradoxos do cristianismo em meio aos problemas existenciais profundos e traumáticos no ambiente familiar: angústia, medo e tremor.

A influência da religião em sua vida ficará assente em sua obra.  Desde o início, ele deixa claro que se trata de um autor religioso.  Neste sentido, Tremor e Temor torna-se um bom exemplo para a introdução ao mundo religioso de Kierkegaard.  Esta obra citada é escrita em um momento de algum otimismo por parte do autor.  Seu objetivo é mostrar através do sacrifício de Abraão que o estágio ético não é absoluto, pelo contrário fica até ofuscado diante de exigências superiores do estágio religioso.  O autor então argumenta que Abraão não hesitou em sacrificar Isaac e que este desprendimento foi exatamente o motivo pelo qual seu filho veio a ser restituído.  Será que semelhante renuncia feita por Kierkegaard em relação à noiva no passado pudesse a trazer de volta então?  A resposta a este questionamento só seria possível se Kierkegaard se elevasse ao plano da fé como o fez Abraão.  Desta forma, percebe-se que o estágio religioso é marcado pelo subjetivismo.

Como apelo à subjetividade profunda, o estágio religioso pratica uma devoção ao Deus que não aparece e comunica-se através do silêncio que provem desta relação.  Isto nos faz perceber que os dois primeiros estágios são mais populares do que o terceiro.  Kierkegaard entendia que os estágios estéticos e éticos não podiam existir sem o estágio religioso.  Em outras palavras, o religioso estava presente tanto no estético quanto no ético.  O religioso é um estágio conseqüente, pois é a partir da desordem dos estágios inferiores que se tem a possibilidade de encontrar a realidade superior da vida religiosa.

Entretanto, apesar da vida religiosa ser conseqüência dos dois primeiros estágios, requer-se por ela uma decisão.  Kierkegaard entende que teve que fazer uma escolha, muito clara, pela vida religiosa.  Entre as várias vocações que estavam diante de si, ele escolheu a vida religiosa, que para o filósofo torna-se a forma de vida mais difícil, entre outras coisas, por ser marcada pela solidão e pelo olhar atento de Deus.  Nesta sua escolha pela vida religiosa solitária, Kierkegaard foi conduzido a uma crise com os oficiais da Igreja Luterana (Igreja oficial da Dinamarca).  O filósofo compreendeu que acontecia em seu tempo a descristianização do mundo.  Sua luta solitária, contra pastores e bispos oficiais preocupados com suas carreiras eclesiásticas, aumentará o seu sofrimento e o fará alvo das chacotas populares, aumentando, a cada dia, a sua solidão.

A solidão no sofrimento torna-se o centro da meditação de Kierkegaard.  A partir da solidão e do sofrimento o filósofo desenvolve o sentido da subjetividade e da existência que vem do seu interior.  Na luta contra o luteranismo oficial, desenvolve um sistema religioso doloroso que se diferencia em muito da religião que se praticava.  O hegelianismo, que outrora o influenciou, é agora alvo de duras críticas dirigidas por Kierkegaard.  Ele não aceitava a aproximação da Igreja com o romantismo de Hegel.  Kierkegaard aponta para o erro imbecil no âmbito religioso, segundo ele não havia qualquer compatibilidade entre o cristianismo como um momento histórico que se devia ultrapassar, conforme o pensamento dos romancistas.  Não, o cristianismo não pode ser considerado apenas como um acontecimento histórico.


EVERTON